Como Ilustrar um Livro Infantil

Ilustrar um livro é muito mais do que desenhar: envolve planejamento, narrativa e escolhas visuais.

Quando recebo um texto para ilustrar, eu não começo imediatamente a desenhar. Primeiro, eu leio o texto. Depois, eu imprimo. Depois eu leio de novo… e de novo. E ao longo do processo, vou consultando, lendo e relendo trechos.

Muita gente acha que o ilustrador só desenha, e não tem que planejar. Que o desenho sai da mão como num passe de mágica. Que é só ‘talento’.

Mas antes de existir uma ilustração pronta, existe uma quantidade enorme de trabalho que ninguém vê: leitura, pesquisa, anotações, decisões, personagens que mudam, rafes/esboços que nem sempre funcionam, páginas que precisam ser reorganizadas.

A pintura final é a parte mais visível, mas o que vem antes também leva tempo. Criar e conceber ideias é algo que demora, mas acaba compensando.

Claro que, antes de tudo isso, há as questões práticas: orçamento, prazo, número de páginas, formato do livro, quantidade de ilustrações e uso que será feito delas. Tudo isso interfere no trabalho também, mas não vou falar dessa parte hoje.

Então, criativamente, para mim, o processo começa ainda no texto.

Uma vez, me fizeram a seguinte pergunta em uma oficina:

“Mas você lê o texto antes de ilustrar?”

E eu respondi, meio surpresa: “Com certeza! Como eu poderia ilustrar alguma coisa sem saber do que se trata?” 

E explico:

Vamos supor que o texto diga que a personagem tem cabelos ruivos. Como eu vou saber se não ler antes? E se ela tiver cabelos ondulados e eu fizer com cabelos lisos?

Mas, pensando bem, talvez eu devesse ter respondido de outra maneira, com por exemplo:

“Sim, e não basta ler o texto só uma vez, porque é preciso captar também o que se diz nas entrelinhas.”

Já aconteceu de, em alguns livros, eu ler tanto que acabei decorando trechos. E, como durante semanas eu comento o texto, falo dos personagens, das cenas e dos problemas que estou tentando resolver, às vezes até meus familiares terminam sabendo tudo sobre a história também. 🙂

E sabe o que é mais curioso? A cada releitura eu percebo alguma coisa nova. Não é incrível?

. O que exatamente aquele personagem está sentindo?

. O que aconteceu antes daquela cena?

. Quanto tempo passou?

. O que o texto diz claramente e o que apenas sugere?

. Qual é o clima daquele momento? O que pode estar acontecendo fora da frase escrita?

E também penso, muito mesmo, no leitor.

. O que ele vai sentir quando chegar naquela página?

. O que a imagem pode acrescentar?

. O que eu posso contar sem simplesmente repetir aquilo que o texto já contou?

Porque, para mim, esse é um dos pontos mais interessantes da ilustração. Temos que pensar “para quem” estamos fazendo as ilustrações.

Se o texto diz que uma menina está com medo, eu não preciso necessariamente desenhar uma menina “com cara de medo”.

Talvez o medo esteja no tamanho do espaço vazio em volta dela, na distância entre os personagens, na posição deles, numa sombra, num gesto, numa composição que afasta.

E eu penso muito no que a criança faria. Como ela iria reagir? O que ela faria numa situação dessas?

E, confesso, essa é a parte mais divertida! Porque crianças dizem e fazem coisas muito divertidas. E, sempre que posso, tento incorporar isso às minhas ilustrações.

A imagem pode (e em alguns casos, deveria) contar aquilo que o texto às vezes deixou em silêncio.

O texto vai virando um guia

Enquanto leio, faço também anotações: características dos personagens, lugares, objetos importantes, sentimentos, mudanças de tempo, relações entre uma cena e outra. Isso é trabalhoso, mas ajuda muito.

Se um personagem aparece várias vezes no livro, ele precisa continuar sendo o mesmo personagem. A roupa do personagem raramente muda nos livros infantis. Então, é preciso manter a consistência. Às vezes, eu até anoto as cores e combinações.

É importante sempre verificar se o cabelo está igual, se o ambiente é o mesmo, se o tempo passou, se a estação do ano mudou, se algum objeto precisa reaparecer depois…

O livro não é uma coleção de imagens isoladas, mas uma sequência, e cada imagem precisa conversar com a anterior e com a próxima.

Pesquisar é essencial e também faz parte do trabalho do ilustrador

Enquanto eu faço a leitura, já começo a pesquisar. Dependendo do livro, posso pesquisar época histórica, roupas, arquitetura, hábitos, vegetação, objetos, animais, cores, ambientes.

Ainda lembro de um livro que minha filha ganhou quando era pequena em que havia um coco numa bananeira. Essas coisas ficam na memória e mostram como um detalhe aparentemente pequeno pode quebrar completamente a credibilidade de uma imagem.

Quando desenho animais, por exemplo, observo anatomia, proporções, movimentos, cores e variações. Isso não significa que depois eu vá desenhar de forma hiper-realista, mas conhecer o que é real me permite transformar de modo intencional.

Também procuro referências visuais não apenas para descobrir como alguma coisa é, mas para perceber como aquilo já foi representado antes, pois isso ajuda a evitar soluções muito óbvias e repetições.

Os personagens começam a aparecer

Durante esse processo, os personagens também começam a surgir. Faço pequenos esboços, vou testando proporções, roupas, expressões, gestos, maneiras de se movimentar.

Isso não quer dizer que eu consiga fazer tudo de imediato. Alguns personagens já vem definidos pelo autor, ou ele insere as características deles no texto. Mas outros, nós é que temos que inventar.

Então, a leitura, a pesquisa, o personagem, a composição e a narrativa vão acontecendo juntas. E, às vezes, uma descoberta muda algo e temos que reavaliar e retrabalhar.

Vou confessar: já me aconteceu de esboçar a menina de sapatos e depois descobrir, relendo o texto, que a autora falava dos pés descalços. Tive que mudar e me perguntei: como é que não prestei atenção nisso antes? Acredita? Vacilei. Mas acontece e corrigi.

Depois, o texto vai começando a virar livro

Desde o início, eu já começo a pensar na história como “livro”.

Ao ler o texto, já vou separando o texto pelas páginas.

E aí tem que planejar:

  • Folha de rosto
  • Créditos
  • Há dedicatória?
  • Quantas páginas realmente terei para contar visualmente aquela história?

Depois começo a pensar no ritmo: que cena merece uma página inteira? Onde uma vinheta funciona melhor? Onde é importante criar uma pausa e o que acontece antes e depois da virada de página? Surpresa ou suspense?

Para mim, essa divisão já faz parte da narrativa visual. Afinal, nem toda criança já é alfabetizada ao “ler” o livro. E construir as imagens pensando nisso é essencial.

Então, ilustrar não começa só quando eu pego o lápis, mas quando eu faço escolhas e decido o que mostrar, quando mostrar e o quanto mostrar. Nem sempre é preciso ilustrar tudo.

É como sempre digo: ilustrar é como fazer um filme.

A boneca do livro

Antigamente, eu fazia uma espécie de boneca física do livro. Imprimia o texto, recortava os trechos, colava nas páginas, fazia anotações e até pequenos desenhos.

Era bastante artesanal, mas funcionava super bem para mim.

Hoje, já faço isso de modo digital, pois assim consigo perceber melhor a sequência, a relação entre as páginas e o equilíbrio do conjunto, além de verificar se a página dupla está funcionando lado a lado e se não estou esquecendo nenhuma parte. Isso também me ajuda a evitar ilustrações a mais ou a menos, a planejar melhor o espaço que tenho e a não esquecer do espaço necessário para o texto.

Então, crio um arquivo com as páginas do livro, distribuo o texto e vou inserindo os rafes, que são os primeiros esboços de composição.

É normalmente esse arquivo que envio para a editora para aprovação. Isso ajuda o editor a visualizar o que pretendo fazer, solicitar alterações sem que eu tenha muito retrabalho, compreender não apenas cada ilustração, mas o livro inteiro como sequência e o que estou pensando como narrativa.

Também facilita o trabalho do diagramador, porque mostra a relação entre texto, imagem e página, e ele não precisa adivinhar onde vai cada ilustração.

Concluindo

Antes de uma imagem existir, teve leitura, pesquisa, tentativa, erro, mudança, descarte, decisão, e essa é a parte que menos aparece quando alguém vê uma ilustração pronta.

Já aconteceu de páginas não funcionarem, personagens que mudaram, composições que precisei refazer, ideias que pareciam ótimas, mas que no papel ficaram sem graça.

Esboços e ilustrações que não foram parar nas páginas dos livros, mas ficaram na gaveta, infelizmente, ou que acabaram sendo descartadas.

Em um livro que fiz, uma ilustração acabou não sendo inserida, pois faltou espaço. Fiquei bem triste, mas, devido à diagramação e ao posicionamento do texto, ficaria muito apertado. Triste, mas faz parte do trabalho.

Há outros modos de ilustrar um livro, mas esse é o processo que fui desenvolvendo ao longo dos anos e que continuo adaptando a cada novo livro.

Se tem algo que me fascina nesse trabalho, é que nunca é entediante. Cada projeto apresenta um problema diferente e exige uma atitude não somente criativa, mas de planejamento. Mas… talvez seja exatamente por isso que esse trabalho seja tão interessante e, por que não dizer, encantador. 🙂

A parte da profissão de ilustrador que ninguém vê

Criar imagens é apenas uma parte do trabalho. Por trás delas existem decisões, contratos, planejamento, pesquisa, aprendizado e uma profissão que continua nos surpreendendo.

Existe uma ideia muito curiosa sobre a profissão de ilustrador. Muita gente imagina a gente desenhando tranquilamente em casa, ouvindo música, tomando café, escolhendo o próprio horário e fazendo aquilo de que gosta. Às vezes, até desenhando na praia.

Embora isso possa acontecer – eu mesma já ilustrei enquanto passava férias na Suécia – nem sempre essa é a regra.

Como não existe um chefe por perto, nem necessariamente um escritório ou um horário convencional, parece uma profissão particularmente livre e tranquila.

Depois de muitos anos trabalhando com ilustração, eu diria que essa imagem representa apenas uma pequena parte da profissão. O restante acontece longe da mesa/prancheta e envolve prazos, contratos, orçamentos, clientes, fornecedores, divulgação, planejamento, impostos, negociações e uma quantidade grande de decisões que quase ninguém vê.

Por isso, há uma expressão que considero bastante adequada: o ilustrador é uma empresa de uma pessoa só. Ele não é apenas alguém que sabe desenhar, nem apenas um prestador de serviços. É também autor de imagens, profissional criativo e, muitas vezes, responsável por praticamente tudo o que mantém sua carreira funcionando.

Eu confesso que meu sonho era não ter que me preocupar com nada além de desenhar, mas para termos uma carreira que funciona, algumas coisinhas a mais são necessárias.

Ilustrador não é apenas prestador de serviço

Quando se fala em trabalhar com ilustração, aparece com frequência a ideia de prestação de serviço. Alguém tem um texto, precisa de uma imagem, contrata um ilustrador, recebe o arquivo e o trabalho estaria concluído. E, de fato, existem ilustradores que trabalham assim. E em alguns projetos, além do contrato de autoria, o cliente solicita a nota fiscal.

Essa definição de prestação de serviço, no entanto, me parece pequena demais para aquilo que um ilustrador realmente faz.

Enquanto cria uma imagem, ele toma decisões o tempo inteiro. Decide o que mostrar e o que deixar de fora, escolhe o momento da cena, determina a expressão de um personagem, conduz o olhar do leitor, cria uma atmosfera e, muitas vezes, acrescenta informações que nem sequer estavam escritas no texto. Ele tem que transformar em arte visual aquilo que foi inventado na cabeça de outra pessoa.

É por isso que é correto dizer que o ilustrador é autor de imagem. Essa diferença não é apenas uma questão de nomenclatura.

Quando o próprio ilustrador se enxerga somente como alguém que executa desenhos para um cliente, tende a pensar principalmente na execução.

Quando se reconhece como autor, passa a considerar também sua linguagem, seu repertório, suas escolhas, sua identidade e aquilo que está acrescentando à obra.

A relação profissional continua existindo, naturalmente, mas a contribuição criativa passa a ser entendida de outra forma. Curiosamente, quanto mais autoral se torna o nosso trabalho, mais profissional precisa ser a estrutura que existe por trás dele.

A empresa invisível por trás da prancheta

Quando alguém vê uma ilustração pronta, enxerga o resultado. Não vê tudo o que precisou acontecer para que aquela imagem pudesse existir dentro de uma atividade profissional.

Antes mesmo de começar um trabalho, talvez seja necessário preparar um orçamento, calcular prazos, conferir materiais, responder mensagens, conversar com fornecedores, negociar valores, organizar outros projetos, emitir documentos e verificar pagamentos. Muitas dessas tarefas parecem pequenas quando observadas isoladamente, mas juntas ocupam uma parte considerável da semana.

Um fornecedor entrega alguma coisa errada, um cliente solicita uma alteração, um contrato precisa ser analisado, determinado material acabou, aparece uma reunião ou surge uma nova proposta e é necessário descobrir se ela realmente cabe no cronograma. Aos poucos, aquela imagem de alguém passando o dia inteiro desenhando dá lugar a uma realidade muito mais ampla.

Em diferentes momentos, o ilustrador acaba assumindo funções de artista, atendimento, financeiro, planejamento, produção, negociação e marketing. O desafio não está apenas na quantidade de tarefas, mas em impedir que todas elas ocupem tanto espaço que reste pouco tempo justamente para aquilo que sustenta tudo: a criação.

Quando divulgar a carreira começa a ocupar a própria carreira

Existe uma contradição curiosa nessa profissão. Para conseguir trabalho, é preciso mostrar o que fazemos. Para mostrar o que fazemos, precisamos reservar tempo para divulgação. No entanto, quando gastamos tempo demais divulgando, começa a faltar tempo justamente para realizar o trabalho que deveria ser divulgado.

Não se trata mais de apenas atualizar seu portfólio de vez em quando. Existem redes sociais, vídeos, sites, newsletters, contatos profissionais, eventos, feiras, propostas e mensagens para responder, além de uma sensação constante de que deveríamos estar aparecendo mais. Eu mesma gostaria de ter mais tempo para postar.

Quando há um livro para entregar, um projeto em andamento ou uma nova imagem para produzir, alguma dessas atividades inevitavelmente precisa perder espaço. Existe uma armadilha real quando o ilustrador começa a trabalhar tanto para divulgar sua carreira que quase não sobra carreira para divulgar.

Às vezes, faço a ilustração inteira e esqueço de filmar ou tirar uma foto enquanto pinto. Depois percebo: Puxa! Isso seria material que eu poderia ter utilizado para postar, para divulgar meu trabalho.

Isso acontece direto comigo. Mas então eu penso: meu trabalho é criar imagens para mundos encantados. Se der para filmar, ok. Se não der, posto a imagem no final. E trabalhar com tinta e lápis de cor ajuda muito nisso, porque tem materialidade.

Marketing e divulgação são importantes, mas precisam estar a serviço do trabalho, e não ocupar o lugar dele.

Nem toda oportunidade precisa ser avaliada apenas pelo cachê

Eu sempre digo: não trabalhe de graça. Faça contrato.

Porém, outra coisa que o ilustrador aprende com o tempo é que nem toda oportunidade precisa ser avaliada apenas pelo valor financeiro.

Principalmente no início da carreira, algumas participações e experiências podem ter importância mesmo quando não são remuneradas. Uma feira, uma oficina, uma participação em projeto, uma exposição ou determinado convite podem permitir conhecer pessoas, ampliar repertório, construir portfólio ou simplesmente adquirir experiência profissional.

Isso não significa aceitar qualquer coisa. Significa compreender em que momento da carreira estamos e por que determinada experiência pode ser relevante naquele momento. Às vezes o retorno vem em dinheiro, enquanto em outras ocasiões aparece na forma de aprendizado, relacionamento, visibilidade ou abertura de caminhos que ainda não existiam.

Com o tempo, essa avaliação também muda. À medida que a carreira cresce, o tempo se torna mais disputado e é natural começar a selecionar melhor os convites. Aquilo que fazia muito sentido no início pode deixar de fazer alguns anos depois.

Também é importante lembrar que um compromisso raramente ocupa apenas o período marcado na agenda. Uma oficina de duas horas, por exemplo, envolve preparação, organização de materiais, comunicação, deslocamento e todo o tempo necessário para interromper e depois retomar o trabalho.

Com projetos, acontece algo semelhante. Antes de aceitar uma nova proposta, precisamos conhecer aquilo que já está em andamento, estimar quanto tempo o novo trabalho realmente exigirá e avaliar se existe espaço no cronograma. Sem esse cuidado, é muito fácil acumular compromissos e descobrir tarde demais que vários prazos decidiram chegar ao mesmo tempo.

Volta e meia eu recebo três pedidos de orçamento para o mesmo período. Nessas horas, preciso ter muita consciência sobre quanto tempo levo para executar cada projeto e se realmente conseguirei entregar tudo no prazo. Eu levo prazos muito a sério e, por isso, às vezes preciso abrir mão de trabalhos que gostaria muito de fazer, simplesmente porque sei que não conseguiria assumir tudo sem comprometer a qualidade do trabalho ou a entrega.

Por isso, planejamento não é apenas burocracia. Ele é uma maneira de proteger o próprio trabalho e a reputação.

Contrato não é detalhe: é essencial

Existe uma parte da carreira que muitos ilustradores prefeririam evitar: contratos, valores e negociações. Justamente por parecerem assuntos muito distantes do prazer de desenhar, podem acabar sendo tratados como algo secundário.

Um contrato, porém, não serve apenas para definir quanto será pago. Ele pode estabelecer prazos, formas de pagamento, alterações, direitos de uso, créditos, entregas e outras condições importantes. Algumas coisas que parecem detalhes podem fazer uma diferença enorme.

Tenho um exemplo muito recente disso. Depois de dezenas de livros ilustrados, quase tive um livro publicado sem o meu nome na capa.

Antes de assinar o contrato, eu mesma havia pedido que fosse incluída uma cláusula garantindo meu nome na capa. Algum tempo depois, quando a autora me enviou a arte final, percebi que meu nome não estava lá. Questionei e ela me explicou que a editora havia informado que normalmente não colocava o nome do ilustrador na capa.

Voltei ao contrato e enviei para eles exatamente a cláusula que havia pedido antes de começar o trabalho. A correção foi feita imediatamente.

Esse episódio reforça uma ideia que muita gente não prevê: o contrato não serve apenas para resolver problemas. Ele serve para pensar nos problemas antes que eles aconteçam.

Negociar também faz parte da profissão. Às vezes são necessários vários e-mails, contrapropostas, ajustes de escopo e conversas até que as duas partes cheguem a um acordo. Isso não significa necessariamente conflito. Negociação é justamente o processo de encontrar condições viáveis para quem contrata e para quem realizará o trabalho.

Saber desenhar bem não resolve tudo

Talvez uma das coisas que mais surpreendam quem está começando seja perceber que é possível desenhar muito bem e, ainda assim, precisar desenvolver uma série de outras habilidades para construir uma carreira.

A técnica, composição e narrativa são fundamentais, mas também precisamos aprender a conversar com clientes, apresentar orçamentos, estabelecer limites, cumprir prazos, organizar projetos, compreender contratos, negociar e tomar decisões profissionais. São competências que normalmente não aparecem quando alguém imagina a vida de um ilustrador.

Ninguém precisa conhecer tudo isso no primeiro dia. Grande parte dessas habilidades se desenvolve com experiência, erros, observação e aprendizado. Quanto antes compreendermos que elas fazem parte da profissão, porém, menos vamos depender do improviso e mais tempo vamos conseguir preservar para criar.

Fazer o próprio horário não significa ter tempo livre, mas é libertador

Outra imagem comum sobre quem trabalha por conta própria é a de alguém que faz o próprio horário e, consequentemente, dispõe de muito tempo livre.

Existe liberdade, sem dúvida. Podemos organizar o dia de uma maneira que talvez não fosse possível em um emprego convencional, mas fazer o próprio horário também significa assumir a responsabilidade por fazer tudo caber dentro dele.

O trabalho não acontece separado da vida. Surgem compromissos familiares, problemas do dia a dia, alterações inesperadas e situações que são urgentes, enquanto os prazos dos projetos continuam existindo.

A grande diferença talvez não esteja em trabalhar menos, mas em ter maior autonomia para decidir quando trabalhar. Essa autonomia é uma das boas características da profissão, desde que venha acompanhada de organização.

Muitos livros que ilustrei exigiram que eu abrisse mão de algumas noites e finais de semana, e não fico ressentida com isso. Foram escolhas que fiz porque percebi que aquelas oportunidades eram importantes para a minha carreira. Não acredito que devamos viver trabalhando dessa maneira, mas também não acredito na ideia de que uma trajetória profissional se constrói sem nenhum sacrifício.

Há momentos em que uma oportunidade importante exige um esforço extra. E existe uma realidade simples no mercado: se você não puder ou não quiser assumir determinado projeto, ele provavelmente seguirá com outro profissional. Isso não significa aceitar tudo, mas aprender a reconhecer quais oportunidades justificam esse esforço.

Com o tempo, experiência, portfólio e reputação ampliam a nossa capacidade de escolha. Mas, principalmente no começo, é importante compreender que construir uma carreira envolve investimento de tempo, dedicação e, algumas vezes, renúncias.

Nem todo o trabalho aparece na imagem pronta

Existe ainda outra parte que quem olha de fora raramente percebe: ilustrar não começa no momento em que o lápis encosta no papel.

Antes da imagem final existem pesquisa, referências, estudos, rascunhos, testes e decisões sobre personagem, cenário, composição, cor e narrativa. Podemos passar horas trabalhando e terminar o dia sem uma única ilustração finalizada para mostrar, embora muito trabalho tenha sido realizado.

O leitor vê o resultado, enquanto o profissional precisa administrar todo o processo que tornou aquele resultado possível.

Uma profissão que muda junto com o mundo

Existe ainda uma característica que acompanha toda a carreira: continuar aprendendo.

O mercado muda, as ferramentas mudam, a maneira como os clientes encontram profissionais muda e aquilo que funcionava alguns anos atrás pode deixar de funcionar da mesma forma. A internet facilitou enormemente a possibilidade de divulgar o trabalho e trabalhar com pessoas que estão em outras cidades ou países, mas também colocou muitos outros profissionais lado a lado.

Quando eu comecei, a maioria das ilustrações eram feitas ainda com tinta e lápis de cor. Mas em pouquíssimo tempo, todo mundo migrou para o digital. Eu aprendi também, mas decidi permanecer com as tintas.

Agora estamos diante de outra transformação importante com a inteligência artificial. Não acredito que a melhor resposta seja fingir que ela não existe. Considero mais interessante compreender o que está acontecendo e aprender a conviver com essas mudanças.

Ao mesmo tempo, tenho percebido uma valorização renovada do artesanal e do feito à mão, algo particularmente interessante para quem, como eu, decidiu continuar trabalhando com técnicas tradicionais.

Talvez esse cenário atual torne ainda mais importante aquilo que existe no trabalho do ilustrador para além da simples produção de uma imagem: autoria, escolhas, narrativa, visão de mundo, repertório, relacionamento profissional e uma linguagem construída ao longo do tempo.

Uma profissão que continua encantando

Algumas pessoas vão dizer: a IA vai acabar com tudo. 

Mas eu acredito que as pessoas também vão querer saber quem está por trás de determinadas imagens, conhecer sua maneira de pensar, sua linguagem e seu processo. Certamente teremos mudanças, mas não acredito que o desejo por trabalhos autorais e reconhecíveis simplesmente desapareça.

E vendo o que está acontecendo no exterior, os ilustradores continuam no mercado, e muitos clientes não querem algo genérico. Querem algo com alma.

Quanto mais trabalho com ilustração, mais percebo como essa profissão é rica. Ela envolve criação, estratégia, relacionamento, pesquisa, aprendizado e uma quantidade enorme de experiências diferentes.

Talvez seja justamente isso que faz com que ela continue nos encantando.

Dificilmente existem dois dias exatamente iguais. Um projeto apresenta um personagem diferente, outro exige uma pesquisa que talvez nunca fizéssemos por conta própria, enquanto um terceiro nos leva a experimentar uma técnica, um cenário, uma composição ou uma solução que ainda não havíamos tentado.

É uma profissão em que estamos constantemente aprendendo alguma coisa. Um livro pode nos levar a pesquisar uma época histórica, um lugar, um animal, uma profissão ou um universo completamente desconhecido. Quando aquele projeto termina, outro aparece trazendo questões completamente diferentes.

É uma profissão empolgante, justamente porque rar amente enfrentamos o tédio ou uma rotina repetitiva.

Cada projeto pode nos colocar diante de uma história diferente, de um universo novo e de pessoas que talvez nunca conhecêssemos de outra maneira. Estamos sempre pesquisando, aprendendo, imaginando, resolvendo problemas e criando alguma coisa que antes não existia. 

Existe ainda algo que considero especial: o nosso trabalho permanece no tempo

Uma ilustração pode se transformar em um livro que alguém guarda durante anos. Pode fazer parte da infância de uma criança, ajudar alguém a compreender uma mensagem, provocar uma emoção, despertar curiosidade, provocar uma mudança ou simplesmente criar uma memória afetiva. 

Também existe a possibilidade de construir uma linguagem própria, colocar um pouco da nossa visão de mundo naquilo que fazemos e, depois de muitos anos, olhar para trás e perceber que deixamos um conjunto de imagens, livros e histórias que não existiriam daquela maneira sem nós. 

A profissão ainda nos coloca em contato com escritores, editores, leitores, outros artistas e pessoas de lugares muito diferentes. Pode nos levar a feiras, projetos, pesquisas e experiências que dificilmente teríamos em uma rotina completamente previsível. Existem contratos, planejamento, orçamento, divulgação, prazos e muitas outras atividades que quase ninguém vê. 

Tudo isso, no entanto, sustenta uma profissão que nos permite criar, aprender, impactar pessoas, construir uma trajetória e deixar um legado. 

Talvez seja justamente por isso que, depois de tantos anos, ela ainda consiga continuar nos surpreendendo. E você, que trabalha com ilustração ou está pensando em entrar nessa profissão, qual parte dessa vida profissional menos imaginava que faria parte do trabalho de um ilustrador? 

Muito obrigada e uma ilustrada semana!

Este livro infantil conta DUAS HISTÓRIAS ao mesmo tempo

Você já viu um livro infantil contar duas histórias ao mesmo tempo?

Neste vídeo, comento a história e as ilustrações do livro ‘Si salvi chi può’ (Salve-se quem puder), de Svjetlan Junaković, e mostro como as ilustrações revelam dois pontos de vista diferentes da mesma situação: o da criança e o da mãe.

Uma leitura cheia de detalhes para quem gosta de narrativa visual, ilustração e livros infantis.

Svjetlan Junaković foi meu professor de ilustração na Fondazione Stepan Zavrel, em Sármede, na Itália.

A ilustração muda conforme a idade da criança?

Você já percebeu como os personagens nos livros infantis crescem conforme a idade do leitor?

Neste vídeo, conversamos sobre como a faixa etária influencia as escolhas do ilustrador: personagens, cenários, cores, narrativa visual, quantidade de detalhes e até o papel que a imagem desempenha dentro da história.

Mais do que seguir regras, entender o leitor ajuda o ilustrador a fazer escolhas mais conscientes e criar imagens que comuniquem melhor.

Se você gosta ou trabalha com ilustração infantil, escreve para crianças ou simplesmente gosta de livros ilustrados, espero que este vídeo traga algumas reflexões úteis para o seu processo criativo.

Uma ilustrada semana!

Minha história como ilustradora e os perrengues no meio do caminho

Durante muitos anos, eu contei histórias através das imagens dos livros que ilustrei.

Mas raramente contei a história por trás delas.

Recentemente publiquei um vídeo mostrando parte da minha trajetória: como surgiu o sonho de trabalhar com ilustração, os caminhos inesperados que encontrei pelo percurso e algumas das decisões que mudaram minha vida profissional.

Antes de me tornar ilustradora, estudei Administração. Mais tarde voltei para a universidade para estudar arte. Mas, como em várias histórias infantis, só na terceira tentativa é que consegui.

Hoje, olhando para trás, percebo que nenhum passo foi desperdiçado. Mesmo os perrengues e decisões não relacionadas a arte acabaram contribuindo para o trabalho que realizo atualmente.

No vídeo compartilho fotografias, trabalhos antigos, livros e algumas lembranças dessa jornada.

Se você gosta de ilustração, livros infantis, criatividade ou simplesmente de ouvir histórias reais sobre construção de carreira, talvez encontre algo interessante nessa conversa.

Assista ao vídeo completo, clicando nele:

Ilustrador não desenha cálculo. Ilustrador desenha atmosfera.

A Perspectiva em desenho costuma assustar muita gente. O nome mesmo – perspectiva –  já parece difícil de falar.

Mas, uma coisa que sempre falo é que a perspectiva é um auxílio para o ilustrador, não um obstáculo.

O objetivo desse texto é ‘mudar sua perspectiva sobre a perspectiva’. Nossa, amei esse trocadilho (minha filha iria revirar os olhos com essa minha piadinha). Rsrs!

Em primeiro lugar, não devemos usar a perspectiva como arquitetos. A ilustração infantil não precisa ser perfeitinha, retinha e observando todos os ângulos. O tortinho dá um certo charme.

Muita gente ensina tudo ao mesmo tempo:

  • horizonte
  • fuga
  • medição
  • escala
  • cilindro
  • rotação
  • escorço

A gente fica travado antes mesmo de desenhar a primeira janela. Até eu, que já ilustro há um bom tempo, entro em pânico ao ver uma aula assim.

 Mas para nós, ilustradores, a perspectiva é mais artística.

A perspectiva, em ilustração, serve para criar espaço, mudar a composição, contar uma história sob um outro ponto de vista. Podemos simplificar. E quando falo em simplificar, não tô falando de empobrecer. Você pode adicionar outros elementos na sua ilustração, que na verdade podem ser muito mais importantes que estar tudo aritmeticamente perfeito.

Ontem dei uma aula ao vivo de perspectiva de 2 pontos para meus alunos da mentoria IlustraBook Lab. 

Para o exercício, peguei uma imagem real de uma cidade. Por quê?

Porque muitas vezes temos que ambientar histórias e muitas delas se passam em lugares que existem. Tem até séries de livros que se passam em lugares turísticos, por exemplo.

Então, achei que seria um exercício interessante e ao mesmo tempo desafiador para meus alunos.

Peguei uma imagem de Amsterdã, que eu tinha visto no meu papel de parede do computador, e que tinha exatamente essa perspectiva de 2 pontos. Eu guardei há um tempo e – voilá – apareceu a oportunidade de usar ela numa aula. Então, mostrei aos meus alunos como eu faço, simplificando os prédios e, depois, adicionando uma ponte e uma personagem para contextualizar a história.

Perspectiva, de fato, quando você precisa que fique perfeita, como num projeto arquitetônico, pode ser difícil…Mas para nós, ilustradores de livros infantis, noções básicas de perspectiva podem auxiliar muito nas suas composições.

Lembre: você não precisa deixar o desenho “perfeito”. 

Ilustração infantil não é desenho realista. Não tem que ser do jeito que alguém determina que tem que ser. Se fosse assim, não existiriam os estilos de cada ilustrador. E é isso, essa variedade, que dá graça aos infinitos livros que tem nas livrarias.

Já imaginou que chato seria entrar numa livraria e ser tudo igual? Um prédio tortinho tem o seu charme.

Na aula de ontem, quando comecei a fazer as linhas, estavam todos concentrados. Estava tão silencioso que até olhei para o computador para ver se tinha algum aluno ainda. Pensei que tinham fugido. Rsrs!!! 

Mas depois que mostrei como eu construo uma cena, muitos falaram que gostaram e uma aluna até falou, admirada: incrível como você consegue transformar o difícil em fácil. (Não preciso dizer que amei o comentário, né?)

E sabe o que mais foi legal: não foi o fato de termos feito uma cena com perspectiva, mas o conjunto da obra, mostrando que acrescentando detalhes (mesmo fora das linhas e ângulos), que criou uma cena com emoção e storytelling.

E a aula acabou ficando muito mais leve do que muita gente imagina quando pensa em perspectiva.

Não porque fizemos arquitetura complexa. Mas porque eles perceberam que perspectiva não é uma “prisão” técnica. Ela é ferramenta de narrativa visual/storytelling.

E o que é essa narrativa visual, que eu falo tanto?

Simples: é você contar uma história desenhando

Muita gente acha que perspectiva na ilustração tem que ser super reta, usar muito a régua e ficar impecável. Mas a verdade é que os leitores querem algo que transmita emoção para eles. 

É mais importante o que sua ilustração transmite do que o desenho estar matematicamente perfeito. Ilustrador não desenha cálculo. Ilustrador desenha atmosfera.

Embora impressione, a perspectiva não serve para “impressionar”. Ela serve para:

  • criar profundidade
  • guiar o olhar
  • abrir espaço para a cena respirar
  • inserir e contextualizar o personagem dentro de um mundo.

Mesmo uma perspectiva simples já transforma o desenho.

E não precisa desenhar tudo. Dois ou três prédios já sugerem uma cidade inteira. O cérebro completa o resto. A gente sugere o suficiente e deixa a ilustração respirar. 

Outra coisa é que a perspectiva também conta história.

Você pode:

  • deixar o personagem pequeno para mostrar solidão
  • usar prédios altos para criar grandiosidade ou uma situação dramática
  • abrir espaço vazio para transmitir calma
  • conduzir o olhar até um detalhe importante

Ou seja: perspectiva não é só técnica. É profundidade, atmosfera/clima e até emoção

Porque o objetivo não é construir um prédio real, mas uma sensação.

Na ilustração, a gente pode simplificar, deformar, exagerar (eu gosto desse aspecto, tipo fazer um braço mais longo ao fazer a mãe abraçando os filhos), suavizar, quebrar regras consciente e intencionalmente, desde que a imagem continue funcionando visualmente, que tenha composição e narrativa.

E sinceramente? Muitas ilustrações lindas têm pequenas “imperfeições” de perspectiva, mas possuem emoção, narrativa e ritmo visual. E isso, na minha opinião, e de editores que eu conheço, acaba pesando mais.

Eu até brinquei na aula: se fôssemos arquitetos, provavelmente seríamos demitidos por não fazer tudo perfeito. Mas como somos ilustradores, quanto mais emoção, ação e até transformação sua arte trouxer, melhor, mesmo que matematicamente esteja imperfeita.

Meu conselho final: experimente, não tenha medo de errar, desenhe mesmo que não esteja tudo retinho, e isso vai fazer você evoluir muito mais rápido.

Para finalizar, pense na perspectiva não como um “monstro técnico”, mas como uma ferramenta criativa. Mude a sua perspectiva sobre a perspectiva. 🙂

O nome do ilustrador vai na capa?

Começando pelo óbvio (e que quase ninguém analisa)…

Você já viu um livro infantil sem ilustração? Provavelmente não.

E isso já nos dá uma pista importante: a imagem não é “acessória” no livro infantil. Ela é estrutural.

Uma pessoa me contou que a autora não queria colocar o nome do ilustrador porque já tinha pago pelo serviço. Ora, então ela não pode colocar o nome dela na capa, porque os leitores vão pagar pelo livro. Se ela vai receber e ao mesmo tempo ser reconhecida pela autoria do texto, por que o ilustrador não pode receber pelo seu trabalho e ser reconhecido por ele?

Se fosse assim, cantores, atores e musicistas teriam que optar pelo reconhecimento ou pagamento. Não concorda?

O que a ilustração realmente faz no livro infantil

Muita gente acha que a ilustração está no livro apenas para “decorar ou enfeitar” a história. Que um livro só existe porque tem texto e que a ilustração é apenas para replicar o que o texto diz.

Entretanto, não é bem assim. A ilustração cumpre algumas funções no livro:

  • Narrativa: conta partes da história que não estão no texto. Quantas vezes o texto só tem diálogo e é o ilustrador que tem que preencher essa lacuna? O próprio personagem, sua personalidade, postura, roupas e acessórios, quem mostra é o ilustrador.
  • Compreensão: permite que a criança entenda a história antes de saber ler
  • Emoção: define o clima, o humor e o ritmo
  • Atração: é o primeiro elemento que chama atenção
  • Memória: muitas vezes, é o que faz o livro ser lembrado depois

Ou seja: a imagem participa diretamente da experiência do leitor.

O papel da ilustração na decisão de compra

Antes de alguém abrir o livro, a decisão já começou. O adulto e/ou a criança já olha direto para o livro que lhe agrada visualmente. Pense: ninguém leu o livro ainda. O que chamou a atenção da criança (ou adulto) foi a ilustração, com suas formas e cores.

A ilustração, comercialmente, ajuda nas vendas. Ela:

  • destaca o livro na prateleira ou no site
  • diferencia um título entre dezenas
  • chama a atenção de crianças, pais e professores
  • ajuda a construir identidade visual

Em termos simples: a imagem ajuda a vender o livro.

Então por que o ilustrador nem sempre aparece na capa?

Em primeiro lugar, quero dizer que a maioria das editoras colocam o nome do ilustrador na capa.

Em geral, quando o nome do ilustrador não aparece na capa, isso revela uma compreensão incompleta de como a ilustração contribui para o livro, tanto na narrativa quanto na percepção do leitor.

Sinceramente, como a maioria das editoras tem visão de mercado, veem que o ilustrador só tem a agregar. Quando o nome do ilustrador não aparece na capa, parte do potencial de mercado que ele traz ao livro deixa de ser aproveitado. O ilustrador também constrói seu público, e isso tende a crescer com o tempo.

A verdade é que, no Brasil, não existe uma regra obrigando o nome na capa. Tudo depende de contrato e negociação, algumas editoras não têm um padrão claro, o responsável pode ser ainda inexperiente, o autor pode, em alguns casos, ter receio de dividir o protagonismo da obra e, infelizmente, alguns ilustradores não pedem por insegurança.

E mesmo quando o ilustrador é reconhecido, isso pode acabar gerando situações como:

  • nome muito pequeno
  • posição pouco visível (escondido)
  • ausência total na capa, e reconhecimento só na ficha catalográfica
  • “esquecimentos” que só aparecem depois da impressão. E aí, já era. Não tem como colar o nome do ilustrador com fita adesiva em 1.000 exemplares, né?

O que a lei diz (e o que acontece na prática)

A Lei de Direitos Autorais garante o seguinte: o autor (de texto e de imagem) tem direito de ser reconhecido pela obra que criou.

E como o ilustrador faz um contrato de direitos autorais com a editora, isso só reforça que o ilustrador é um criador, um autor de imagem.

Mas a lei tem brechas e não determina exatamente onde o nome deve aparecer,

com qual destaque e em quais materiais. Muitas vezes até aparece no livro, mas não é convidado para o lançamento, seu nome não aparece nos cartazes e às vezes nem nas lojas.

Uma comparação de lógica de mercado (Brasil x Itália)

Quando estudei na Itália, vi um padrão diferente: autor do texto e ilustrador aparecem juntos na capa, com peso visual semelhante e posicionados com destaque na capa. Um à direita no alto, e outro à esquerda.

Isso não é apenas um detalhe gráfico. É uma leitura de mercado, afinal o ilustrador também atrai leitores e o nome agrega valor ao livro.

Um fato: Quando o ilustrador não aparece, não é só o profissional que deixa de construir reputação, mas o livro perde uma parte da sua identidade.

Mas o que fazer na prática, para nós, ilustradores?

Eu mesma, mesmo depois de anos de experiência, não estou imune a essa possibilidade do nome não sair na capa. Pode acontecer, seja por erro, descaso ou falta de visão de mercado.

Mas na minha experiência, é melhor prevenir do que remediar. A melhor alternativa é perguntar antes de assinar o contrato. Se afirmarem que vai na capa, ótimo. Temos que confiar na palavra. É possível também solicitar para que conste no contrato. Nem todos vão aceitar, mas pelo menos você enfatizou de que isso é importante para você. Se necessário, pode até argumentar.

Eu, quando faço algum trabalho e eu mesma redijo o contrato, sempre coloco essa cláusula. A exceção é quando a editora me envia o contrato.

Vale também perguntar antes de fechar: meu nome vai na capa, né? (Pergunte como se fosse óbvio. Não dê margem para que eles digam não). “Como será apresentado? Com qual fonte (tamanho?)”.

Se for possível, coloque em contrato:

  • posição
  • tamanho
  • destaque
  • aplicação em materiais

Observe a resposta da editora. A forma como respondem já indica se há profissionalismo. Respostas evasivas costumam indicar problema futuro.

Algo a se ressaltar: não temos controle sobre tudo. Mesmo que afirmem que irá, só vamos ter certeza depois que for publicado.

É importante estar consciente disso. Mas informação é poder e se você discutir o assunto e mencionar a lei de direitos autorais, isso pode ajudar.

O que aprendi depois de mais de 30 livros

Depois de trabalhar com diferentes editoras, projetos e contextos, ficou claro para mim: boas editoras sempre reconhecem o ilustrador.

Defender seu nome não é ego, vaidade, “ser difícil” ou “estrelinha”. É direito seu.

Também não vai atrapalhar o projeto. É simplesmente reconhecer o valor do próprio trabalho.

Para finalizar e responder a pergunta do título:

Se a imagem conta e/ou amplia a história, atrai o leitor, ajuda a vender, então o profissional responsável por isso não deveria ser invisível na capa. Para mim, a resposta é simples: o nome do ilustrador deve estar na capa. Sempre.

Não é só talento: 7 verdades sobre aprender a desenhar


1. Em primeiro lugar, seu desenho não precisa ser realista nem perfeito.

Muita gente acha que só é bom o desenho realista. Mas desenho e ilustração têm muitos estilos. Que graça teria se todo mundo fizesse igual?

    2. Observe livros infantis e veja o tipo de ilustração que você gosta.

    As cores têm degradê ou são chapadas? Têm contornos? Usam anatomia ou estilização? São minimalistas ou cheias de elementos?


    3. Não basta repetir: é preciso praticar buscando progredir.

    Fazer a mesma coisa no automático não gera o melhor progresso. Se fosse assim, todo motorista de táxi poderia ser piloto de Fórmula 1.


    . Desenhe observando o que pode melhorar e procure referências, estudo ou orientação.
    . Escolha um ponto por vez: formas, luz e sombra, composição etc.
    . Curta mais o processo que o resultado. Isso tira a cobrança.


    4. Melhorar exige sair do confortável.

    A evolução acontece quando você vai além da habilidade atual. Se faz só o que já sabe, evolui menos.

    . Desafie-se e tente desenhar ângulos mais difíceis.
    . Se tem medo de cenários, procure nos livros infantis e tente replicar com seu estilo.
    . Tente desenhar personagens em poses novas, mesmo que no início pareçam sem equilíbrio.

    5. Feedback acelera muito.

    Aprender sozinho é possível, mas correções externas ajudam. Um olhar de fora, de alguém que já trilhou esse caminho, pode te fazer dar um salto muito grande no desenho.

    Algumas sugestões:

    . um curso
    . mentoria
    . análise crítica
    . comparar referências
    . rever erros antigos

    6. Desenhe sem pressa e foque nos detalhes.

    Cuide da qualidade do traço enquanto curte desenhar. Quem gosta do processo pratica mais sem perceber.

    Consistência e disciplina fazem maravilhas pelo desenho. Treinar sempre costuma funcionar melhor do que surtos esporádicos de motivação. Melhor um pouco todos os dias do que só uma semana, uma vez por ano.


    7. Observar não somente o que se desenha, mas os espaços entre as linhas.

    Desenhistas enxergam padrões, vazios e formas.

    . Veja formas básicas por trás dos objetos.
    . Primeiro a base, depois os detalhes.

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